| Profiel van Thiago LeiteTeia NeuronialWeblogLijsten | Help |
|
21 maart Mudança de EndereçoPara aqueles que ainda se dão ao trabalho de vir aqui, mesmo tendo as fortes perspectivas de não encontrar novidades, não estarei mais usando este espaço.
Ao invés disso, estarei com um sítio/site (blog, "diário" virtual, como quiserem):
Visitem-no, vejam-no, vençam-no. 27 oktober Referendo, Reverência à Estupidezou Como Errar Metodicamente o Alvo
Quase todos os brasileiros votaram para decidir a aprovação ou não de uma lei para proibir a comercialização legal de armas de fogo.
Para não deixar dúvidas, antes de continuar a escrever sobre isso, vou dizer explicitamente o meu posicionamento. A princípio, por ser a favor do total desarmamento da humanidade, eu votaria sim. Eu votei no número 3, anulei meu voto de propósito. Não sou a favor de uma proibição, seja qual for. A questão é que proibir a venda legal de armas não impedirá ninguém de ter uma, e não estou falando só dos "bandidos". Tal proibição não mudaria de uma hora para outra a mentalidade das pessoas que andam armadas com suas pistolas e sua medíocre honra. Para haver desarmamento, é preciso que a tão ridiculamente louvada "valorização da vida" seja uma verdade difundida na mentalidade das pessoas. Não digo isso por ser contra a vida, pelo contrário, sou a favor da vida, mas a vida não deve ser defendida por uma imposição da lei, e sim por um costume libertário (que só poderia, parece-me, ser difundido por uma educação racional, humana e humanística). No entanto, por também não concordar com a venda de armas, não poderia votar "não" sem estar sendo incoerente com minhas idéias.
De qualquer forma, o referendo foi uma mostra de como um governo incompetente (não sei mais se lamento ou não ter votado no 13, ah, o número 13, azar ou sorte?) consegue errar com destreza o alvo. Antes de decidir sobre a proibição da venda de armas, seria preciso que a polícia (enquanto precisamos dela, espero que não para sempre) fosse melhor preparada e que o crime organizado e bem armado fosse desconstruído e desarmado. Mas isso ainda não ocorreu.
Mas o Referendo até que ajudou um pouco a fazer esquecer por algum tempo o escândalo do mensalão. 03 augustus Concurso, Arte e Dinheiroou Boa Sorte ao Poeta que não é Poeta
Vou participar do 2o Concurso de Poesias Zila Mamede. Não estou nada preocupado com reconhecimento, não quero ser poeta (a não ser no estrito sentido de ser alguém que faz poemas, mas só o faço por hobby e, neste caso para ganhar dinheiro). Como dizem os parênteses, não entro no concurso para outra coisa senão ganharos R$ 2.000,00 (ou no mínimo os R$ 500,00). Menção honrosa... dispenso. Vou escolher os poemas dentre os que tenho guardados, talvez só 3.
Alguns amigos me diseram que tenho muita chance de ganhar. Ora, claro, são meus amigos (amigos, pelo menos a maioira deles, são aquelas pessoas que mais mentem a nosso respeito, o que é sua maior diferença em relação aos inimigos), mas sei que em parte estão certos. Em parte, primeiramente, porque sei que faço bons poemas (sei por mim, sem falsa modéstia, e por pessoas que sei que têm bom gosto). Em parte, segundamente, porque os tipos de poemas que faço valorizam muito a forma (a forma, digamos, formal da poesia - rimas, métrica, muitos são sonetos decassílabos), o que para nossos apreciadores de poesia de hoje não é lá tão valorizado. Como disse a um amigo recentemente, arte é em primeiro lugar forma, não consteúdo.
Boa sorte. 25 maart Alienígenas e Predadoresou A Ficção Científica como Palco do Embate entre Masculino e Feminino Um dia desses assisti a um dos filmes que tem sido um dos mais esperados em décadas pelos fãs do cinema de ficção científica. Depois de terem se encontrado nos quadrinhos, em dezenas de video games e terem sido motivação para muita imaginação, os "aliens" (dos filmes Alien: O Oitavo Passageiro, 1979; Aliens, 1986; Alien 3, 1992; e Alien: A Ressurreição, 1997) e os "predadores" (O Predador, 1987; O Predador 2, 1990) finalmente se encontraram (e se enfrentaram) no cinema. Mas o que pode explicar tanta expectativa em relação a esse encontro de predadores? Seria a simples reposta a uma especulação de fãs quanto ao que resultaria do encontro entre as duas fictícias espécies alienígenas? Uma motivação política, esperando uma obra artística que retratasse de forma metafórica "a guerra entre o bem e o mal" (ou entre o Ocidente e o Oriente, ou entre o Primeiro Mundo e o Terceiro Mundo, ou entre Estados Unidos da América e o resto do mundo)? Penso que não se trata de mero capricho hollywoodiano. Ora, embora o filme venha sendo prometido há muitos anos (e este que escreve foi um dos que o esperou ansiosamente), tudo indica que a idéia do embate entre esses alienígenas tenha surgido entre os fãs de cinema e ficção científica; apareceram assim muitas sugestões em diversos video games (como o famoso arcade Alien vs. Predator, da Capcom, que me divertiu muito nos meus 14 anos) e nos quadrinhos. Além disso, o público que ansiou por esse filme é restrito e específico demais, embora fiel. Tampouco a "motivação política" parece ter sido inspiração para a obra. Quando se trata de retratar questões, conflitos políticos, guerras etc., Hollywood nos "presenteia" com Rambo (1982), Nova Iorque Sitiada (1998) e outras coisas. Ao assistir ao filme, veio-me à mente o livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário, de Gilbert Durand. Notei que era possível enquadrar os aliens no regime noturno da imagem, de acordo com a classificação de Durand, enquanto os predadores se encaixam melhor no regime diurno. Sem me demorar numa explicação sobre o que é cada um desses regimes, contento-me em explicar que essa classificação significa que os aliens representam o feminino, enquanto os predadores são símbolos masculinos. Uma das coisas que me chama atenção é a escolha da designação de cada espécie. Ambas são alienígenas (em inglês alien), e ambas são predadoras. Mas os aliens são mais animalescos, mais próximos da natureza, numa palavra, são mais orgânicos. Em nossa cultura ocidental androcêntrica, normalmente a mulher (e o feminino) é representada como mais próxima da natureza e, assim, um ser estranho em relação ao homem (e o masculino), que seria mais próximo da cultura. A mulher é tratada por nossas representações milenares como o segundo sexo, como um alienígena, uma criatura diferente do homem, sendo este tido como modelo de ser humano. O homem/macho, por sua vez, é o sexo guerreiro, suas motivações são vistas como as de um caçador em busca do sustento da família e também de um predador que luta por troféus (sejam riquezas ou mulheres). Os aliens têm uma relação estreita com sua mãe, uma relação orgânica no sentido mais romântico que a semântica dessa palavra pode alcançar. São bem como abelhas ou formigas, o que pode nos autorizar pensar que são todos fêmeas, vivendo num mundo natural, biológico, como em nossa cultura se representa a mãe com os filhos, nos laços afetivos de um mundo feminino. Suas armas são seus próprios corpos, a cauda flexível e perfurante, o sangue ácido, a arcada bucal dupla e a hiper-resistente couraça. A relação que estabelecem com os protagonistas humanos é orgânica também, pois sua procriação depende de um organismo hospedeiro (no caso os humanos) na primeira fase da vida, e dos corpos humanos aprisionados para servir de alimento. Já os predadores se caracterizam por ser mais individualistas, "livres" num sentido, sem um vínculo afetivo materno que lhes tolha a individualidade. Aparentam ser todos machos (possuem um físico masculino, segundo os padrões humanos), numa sociedade cooperativa-competitiva, em que lutam lado a lado mas parecem ter objetivos pessoais (que no entanto coincidem). Agem como heróis em busca de troféus de suas caçadas, e viajam pelos planetas em busca de satisfação para seu esporte. Suas armas sãp artificiais, lanças e garras retráteis, discos cortantes que voltam como bumerangues, lasers explosivos lançados de seus ombros, redes de aprisionamento, bombas (que podem usar para se matar, num gesto de honra masculina tipicamente conhecido entre guerreiros da Terra) e outras, além de uma armadura sem a qual podemos imaginar que seriam bem vulneráveis. Resumindo, parece que esse embate simboliza uma querela que perdura entre seres humanos há muito tempo, e que sempre foi motivo para elaboradas teorias sexistas e piadas preconceituosas sobre mulheres e homens que parecem não perder a validade entre aqueles (muitos) que pensam que está na natureza a origem das diferenças de comportamentos entre os machos e fêmeas humanos, e daí as desigualdades entre eles também. 20 maart O Inadaptadoou Experiência Frustrada de um Antropólogo Eclético ao Tentar Aproximar-se dos Nativos da "Antropologia Social" Na última sexta-feira eu soube do resultado da seleção para o Mestrado em Antropologia Social da UFRN, à qual eu concorria. Fizera uma prova de conhecimentos com bom resultado (sendo eliminatória, eu passei), uma prova de proficiência em língua inglesa muito boa (embora sem saber minha nota, sei que fui bem, achei a prova muito fácil) e uma entrevista que com certeza deixou a desejar para a comissão julgadora (por motivos de ordem ética e principalmente literários, já que não é minha intenção aqui atacar pessoas, mas criticar instituições, não revelarei os nome dos professores que fizeram parte dessa comissão). Meu nome não estava entre os aprovados. Embora eu soubesse que a concorrência não era grande, que eu tinha plena capacidade de satisfazer as exigências da seleção, sabia de antemão que o projeto que apresentei, que tem um caráter estritamente teórico, com pesquisa bibliográfica, não agradaria aos docentes do DAN (Departamento de Antropologia) dessa Universidade, que têm uma obsessão por Etnografia, trabalho de campo que para eles é imprenscindível a qualquer pesquisa antropológica. O tema da entrevista foi justamente o meu projeto. Para eles, eu parecia não ter uma visão clara do que é cultura; em meu projeto eu me propus investigar as representações ocidentais da mulher, vista como mãe e/ou como meretriz; para a comissão de seleção, a cultura é específica, e eu não poderia abordar o mundo ocidental como uma cultura. Mas assim eles querem ignorar que há coisas que não são específicas (o que é o estruturalismo de Lévi-Strauss senão a constatação de instituições universais?), e a delimitação de uma cultura depende da escolha do olhar do pesquisador. Além disso, o autor cuja teoria nortearia minha pesquisa, Gilbert Durand, com seu livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário, foi apontado como não adequado por sua obra não ser a mais atual sobre o tema. A comissão ignorou, assim, a natureza de minha proposta, que era usar a obra de Durand como fundo teórico, já que eu não ignoro (e a comissão parece ter ignorado) que esse antropólogo francês não abordou o tema que eu propus. Sinto-me inadaptado no meio acadêmico, e sei que muitos pensadores que lá estão também se sentem assim. Mas tenho a sorte de encontrar algum refúgio na Universidade para pensar a Ciência de uma forma mais aberta e menos preconceituosa. Esta geração, para criar uma Universidade digna deste nome, precisa se esforçar muito num debate sério e longo que revise o que é o Conhecimento. Nota sobre o título: "O Inadaptado" é um capítulo do livro Sexo e Temperamento, da antropóloga norte-americana Margaret Mead, no qual ela discorre sobre aqueles indivíduos cujo temperamento não se adapta ao tipo de personalidade esperado para o seu sexo pela cultura em que estão inseridos. 17 maart Atualizaçãoou I Live Again! Para ser bem sincero e direto, só estou postando este texto para manter o blog atualizado (e para dar um sinal de que ainda vou continuar com ele). Não venho publicando aqui por várias boas razões, e não preciso listar todas elas (algumas não interessam a várias das pessoas que aqui comentam), apenas que estive ocupado estes dias com a seleção do Mestrado de Antropologia Social da UFRN. Mas estou retomando o site, e logo, logo vocês verão novos textos pedindo por reflexão dos seus leitores e por comentários inteligentes que eu sei que aqueles que os lêem podedm fazer (agradeço a todos aqueles que já registraram sua passagem por aqui, todos vêm me ajudando muito). Abraços. 24 februari Espelho Maldito"Normalmente, parece que a gente somente se irrita com as pessoas que pensam e que agem como nós." (Teresa Filósofa. Porto Alegre: L&PM, 2000. p. 111.) 18 februari Conto no Alter-EgosAnteontem, 16 de fevereiro, o blog Alter-Egos publicou um conto de minha autoria, o Beijo do Saxofone. Na realidade, foi uma "brincadeira" de Dyego Saraiva, o autor do tal blog, que sugeriu como trecho inicial as seguintes palavras: "Estávamos tocando a terceira música, era um Coltrane, e" A partir dessa deixa, eu e mais outros amigos desenvolveríamos, cada uma à sua maneira, o texto que quiséssemos. No meu caso, o resultado foi o conto de que falo acima. Confiram! 12 februari Veja esta Colunaou No Meio do Caminho tinha uma Pérola A "imparcial", "neutra", "objetiva" revista Veja não consegue esconder as sutilezas que denunciam da sua posição conservadora na imprensa. Mas sempre há espaço nesses meios para posição diversas, como as colunas e os ensaios, e vez por outra podemos encontrar um texto menos reacionário e mais lúcido a respeito dos assuntos hodiernos que representam tanta polêmica, como o pequeno artigo de André Petry publicado na Veja de 9 de fevereiro de 2005, que reproduzo abaixo.
Notem especialmente o trecho que ao meu ver é o nó górdio do texto: "ainda se diz que George W. Bush foi eleito numa crescente maré de defesa de 'valores morais'". Como se pode negar que foi isso mesmo? Petry tem consciência disso ("E o pior é que foi mesmo."). O que ele deixou de acrescentar foi que isso não é ruim. Os valores morais nunca se furtaram de usar meios violentos para atingir seus fins, de usar da guerra, do preconceito, do racismo, do obscurantismo, ou seja, da "escuridão, do atraso, da estreiteza conservadora e, é claro, do patriotismo". O que falta à política de Bush é outra coisa, que poderíamos chamar de Ética, muito diferente da Moral (vejam o post do dia 18 de dezembro de 2004, Da Hierarquia ao Universalismo). Se estivéssemos diante de um governo ético, poderíamos ter mais esperança de ver ações que respeitassem a liberdade de um povo de fazer sua própria história. Poderíamos esperar mais consideração à emancipação da mulher e dos homossexuais; uma posição menos atávica com relação ao aborto; uma política menos pareceida com uma caricatura do medievo obscurantista inimigo do desenvolvimento do conhecimento; uma posição mais humano para com a humanidade. 04 februari Resposta a um Comentárioou Relativizar o Relativismo será Contrário ao Universalismo? Ao post intitulado Divagações Humanísticas (3 de fevereiro), minha amiga Maria de Lourdes fez um mui pertinente comentário. Quero aqui (re)comentá-lo, para que o debate não se acabe e não se faça (lembrando Ezaú e seu comentário ao post do dia 20 de janeiro, Reino de Ninguém) uma "ecologia das idéias". Lourdes se pergunta:
O extremo relativismo que meu texto transpareceu não foi intencional. Na realidade, ao tentar discutir através de uma visão relativista (que não abandono, pelo menos ainda não), acabei não o contrabalançando com alguma dose de universlismo (que também ainda não me permito abandonar). Concordo, sim, que há certamente algo comum a todas as consciências. Se asssim não fosse, não haveria sentido pensar uma ética. Um ideal de humanidade mais justo, a considerar que todos são "iguais", parece ter que constatar que todos têm algo que os torna semelhantes. Mas é então que se complica o debate, quando Loudes continua:
Parece que, da mesma forma que meu texto foi exacerbadamente relativista, o comentário de Lourdes foi por demais universalista. Penso que é válido o individualismo, a constatação de que somos diversos, de que não somos clones, de que temos pequenos "defeitos" que permitem a vida. Talvez (cá concordo) isso nos distancie, mas (aqui discordo) pode ser que seja isso um elemento necessário para que nos aproximemos. Sempre se procura inventar (ou descobrir) algo diferente no mundo. Mesmo que seja para esse "outro" assumir o papel do inimigo, sempre ele é, paradoxal e ambiguamente, uma coisa que queremos, que desejamos. Acho necessário não deixar de atentar para as ambigüidades e paradoxos dos conceitos que estamos utilizando. Pois, se o relativismo pode servir, e serve, aos projetos imperialistas do capitalismo (que melhor forma de legitimar a dominação do que naturalizando - e hierarquizando - as diferenças?), ele não deixa de se acompanhar de um modelo universal de "humanidade". Ao mesmo tempo, pensando o que poderia ser uma melhor humanidade, não parece apropriado abandonar o relativismo, pois um universalismo exagerado pode se tornar universalização, ou seja, uniformização com esquecimento da alteridade. Essa ambigüidade é mostrada por Lourdes no seguinte trecho do seu comentário:
A ditadura da liberdade é talvez a pior de todas, não simplesmente por ser uma das mais hipócritas, mas por exigir uma conduta extremamente contraditória (como é todo moralismo): ao mesmo tempo em que quer espontaneidade, exigie-se-a sob pena de exclusão; ao mesmo tempo em que se espera de todos uma adequação a essa moral, não tolera os preconceitos. (Mas tais preconceitos já estão todos previstos, e o que não se prevê é que os alvos de tais preconceitos não são identidades fixas, e destes se acaba obrigando que se cristalizem em tais identidades.) Acho que aqui, embora o que venho dizendo mostre evidentes divergências com Lourdes, posso dizer que afinal concordamos em algum ponto (ou, ao menos, assim o quero enxergar): não se deve absolutizar nem o relativismo nem o universalismo, ao mesmo tempo em que não se deve abandonar nenhum dos modos de vi-ver o mundo, por mais difícil (se não hercúleo) que pareça e seja. Mas se fosse tão simples, não haveria (absolutamente) necessidade deste diálogo. Enfim (e podem reclamar se estiverem achando os textos longos), não abandono um ideal de humanidade, mas ele deve ser sempre repensado e estar sempre posto em questão, e essa deve ser uma de suas características, não se cristalizar, para não se tornar mais um deus opressivo desses que conhecemos aqui e alhures. Nota Cara Lourdes, quanto ao "novo Chomsky", claro que o texto não pretendeu falar de nenhuma motivação com trás do signo, nem é um texto sobre Lingüística. A pretensão da comparação de palavras do japonês e do português foi uma brincadeira-pretexto para a discussão sobre o conceito de humanidade. Mas disso você já sabia. 03 februari Carteiras pela Janelaou Defenestrar ou não Defenestrar? Dedicado a Moab Lucena Em Defenestração, crônica de Luís Fernando Veríssimo, o autor apresenta uma palavra desconhecida para a maioria dos falantes da língua portuguesa, palavra pertencente a essa mesma língua. Na verdade, duas palavras, o substantivo defenestração e o verbo defenestrar. Ao iniciar a crônica dizendo que algumas palavras têm o significado errado (como falácia, que para ele deveria ser o nome de "alguma coisa vagamente vegetal", ou hermeneuta, que deveria denominar os integrantes de uma seita hermética que atormentaria a população com suas frases sem sentido), o autor se pergunta o que seria defenestração. Uma coisa que só as mulheres libertinas fazem? Uma dessas palavras pomposas a serem usadas no final de documentos importantes? Um tipo de crime hediondo? (Qual seria a reação de Dona Bela, da Escolinha do Profesor Raimundo, à pergunta: "O que é defenestração?") Algum de vocês leitores já defenestrou? Eu lembro de um expulsão de um colega do 1o ano do 2o grau que ocorreu por causa de uma defenestração. Mas não uma defenestração qualquer. Ele defenestrou uma carteira da sala de aula, no Colégio Hipócrates Zona Sul. Quem o conhece hoje dificilmente imaginaria que ele fosse capaz desse ato. Pelo que ouvi do próprio defenestrador, ele cometeu a "infração" durante uma bagunça generalizada na classe, aproveitando o ensejo, talvez para mostrar como é que se faz bagunça de verdade. Como eu disse, o ato lhe rendeu uma expulsão, ou "transferência", como preferem os coordenadores das escolas e colégios. Ao pensar hoje nesse antigo colega defenestrador e atual amigo sociólogo, rememorei a crônica de Veríssimo. Mas a lembrança também suscitou uma reflexão sobre os métodos educacionais que temos por aqui. O método pedagógico da "transferência" se justifica por uma forma de ensinar o aluno a se comportar: "Se não se comportar, tiraremos você dessa escola, dos seu colegas e amigos para uma outra escola, em que você ficará intimidado pelo ambiente novo e onde não terá colegas e amigos em que confiar (isso, claro, até que você se enturme, comece a manjar dos pontos fracos do corpo docente, e cometa outro ato imprudente, para ser "transferido" outra vez)." A lógica desse procedimento não me parece ser outra coisa senão o fato de que a escola que "transfere" não sabe lidar com o aluno que ela não foi capaz de educar, e joga a batata quente para outra escola. Tanto não se justifica tal procedimento pela razão quanto se poderia justificar a "bagunça" da sala de aula como uma forma legítima de resistência (nos termos do sociólogo Michel Maffesoli) à opressão dessa educação que não educa para a vida, mas para o Vestibular, o diploma e o mercado de trabalho. Dessa forma faz sentido recordar Another Brick in the Wall, do Pink Floyd: We don't need no education We don't need no thought control No dark sarcasm in the classroom... 31 januari Divagações Humanísticasou A Humanidade se reduz a Ningen Alguns jesuítas, na época da catequização, procuraram uma raiz comum entre o tupi-guarani e o grego, como forma de mostrar uma origem comum entre os nativos americanos e os europeus. Um dos supostos indícios seria a palavra oca, que signfica "casa", muito parecida com o grego oikos, com o mesmo significado. Esse tipo de coincidência não deveria surpreender (principalmente no caso de línguas com origens comuns, com os cognatos), já que em meio a milhares de signos, significantes e significados em tantas milhares de línguas no mundo, seria de espantar não encontrar nenhuma coincidência. Outro exemplo é o vocábulo japonês ai, que significa "amor". Será que essa palavra japonesa fala da dor do amor romântico que conhecemos no ocidente? Um exemplo muito interessante é a palavra nipônica ningen, que significa "humanidade", no sentido do substantivo coletivo. Sua pronúncia é quase a mesma do portugês ninguém, o que poderia nos fazer pensar na comunidade humana como uma coisa tão abstrata que na realidade não é nada. Se levássemos a sério essa coincidência como não-casual, poderíamos descobrir uma sabedoria japonesa que nos mostra que "humanidade" é um conceito irreal, que não é o conjunto dos seres humanos, nem é algo maior do que o conjunto dos indivíduos da espécie humana (o todo maior do que a soma das partes, nos termos de Émile Durkheim), mas apenas um ideal (ainda) não-realizado. De fato, cada povo, em seu etnocentrismo, deve ter criado sua própria idéia de "humanidade", geralmente pensada nos moldes de sua própria cultura, ou mesmo pensada como abarcando apenas os indivíduos de tal povo. Os europeus, a quem devemos uma razão que permite pensar a "humanidade" como mundial/terrestre, já a idealizaram como incluindo apenas os "cristãos civilizados". Para os gregos da democracia antiga, a "humanidade" eram os cidadãos livres da pólis, excluindo as mulheres, os escravos e os estrangeiros. Para muitos povos tribais, as pessoas das tribos vizinhas não são humanas, e por vezes são consideradas animais ou seres sobrenaturais, de natureza alienígena, mesmo que a diferença biológica-cultural entre as duas comunidades seja ínfima. Talvez devêssemos repensar o conceito de humanidade. No real, não há "humanidade", apenas seres humanos, indivíduos, tentando existir e sobreviver, e/ou tentando existir e conviver com os outros. Mas não adianta o altruísmo para se criar uma "humanidade", pois as relações entre os seres não se resumem nem se reduzem a uma grande teia cristalizada e parada na história. Mesmo que consigamos viver pelos ideais de uma razão "humana", não haverá uma humanidade, mas sempre haverá uma tal mutabilidade dos indivíduos e nas relações, uma tal diversidade de humanidades (em quaisquer sentidos que esta palavra abarque) e alteridade de realidades, que não fará sentido uma "humanidade". Esta não abarca ninguém, pois não pode falar da realidade das consciências no(s) unvierso(s). 28 januari De Roma a Klingonou Impérios do Passado, do Presente e do "Futuro" Ontem à noite assisti a um episódio da série de televisão Enterprise, baseada no universo de ficção científica do filme Jornada nas Estrelas (Star Trek, 1966). Não sou um "trekker" (como são conhecidos os fãs dos filmes e das séries), mas gosto desse tipo de ficção científica (como a seqüência Guerra nas Estrelas e o seriado Babylon 5), que encenam num ambiente fantástico vários temas humanos e existenciais. No tal episódio, intitulado "Judgment", o capitão da nave Enterprise, Jonathan Archer, era réu num julgamento feito pelos klingons, uma raça alienígena que expande seu império pelo universo, colonizando outros planetas. A acusação era a de que o capitão humano havia se recusado a devolver refugiados que se rebelaram contra o Império Klingon. A versão do acusado era a de que ele na verdade não devolveria os "rebeldes" por estes estarem em péssimas condições de vida e precisando de assistência. Mas as leis do Império preponderariam neste caso, embora se tratasse de uma acusação a alguém que não estava politicamente envolvido com o Império. A história me lembrou o seriado Babylon 5, que costumava ser exibido no Sony Entertainment Television. O seriado tratava da história de uma estação espacial, a Babylon 5 (Babilônia 5), criada pelos humanos para servir de fulcro diplomático, um local neutro onde se encontravam representantes de várias raças de vários planetas. Uma dessas raças, os centauri, do planeta Centauri, tinham um império como o dos klingons de Jornada nas Estrelas, e um dos dramas da trama era o conflito dos centauri com uma raça chamada narn, do planeta Narn, que sofreu muito com a Pax Romana dos centauri. Este fim de semana deverão ocorrer eleições presidenciais no Iraque, um acontecimento que deverá marcar um novo regime político-governamental no país. A nova Aliança Unida Iraquiana (como soa ocidental...) terá uma democracia e um governante eleito "democraticamente". Experimentará um ritual típico da cultura do povo que recentemente o colonizou. Os favoritos são pró-EUA, e vários dos candidatos estudaram ou viveram na Europa ou na América. Ou seja, estão ali como representantes dos interesses do Império que conhecemos como Estados Unidos da América. O império é um fenômeno histórico que se repete desde a Antigüidade (Mesopotâmia, Egito, Roma, Grécia, China) até os dias de hoje em nosso planeta. Observar esse fato chama a atenção para uma característica típica de nossa espécie humana. Nenhum animal coloniza ou escraviza indivíduos de sua própria espécie como fazemos. É que a cultura nos ensina a diferenciar as comunidades humanas como tão díspares entre si quanto o são os elefantes e as formigas. A ficção científica chega ao ponto de representar diversos povos como pertencentes a espécies diferentes, mas que são na verdade simbólicos da diversidade cultural (e mesmo individual) do próprio ser humano. 20 januari Reino de Ninguémou Encontro "Casual" de um Ateu com Jeová Acordei cerca das 8:45, para escovar meus dentes e tomar sossegado meu café-da-manhã. Alguém bate palmas à porta, e Edilma, a empregada doméstica, está ocupada limpando a casa. Meus pais e meu irmão estão fora, minha irmã e minha prima ainda estão dormindo, e tenho que interromper meu tranqüilo café-da-manhã para atender a duas senhoras que se apresentam como "pessoas que decidiram sacrificar um pouco do seu tempo para ler a Bíblia com os moradores da vizinhança". Por alguma razão que ainda desconheço, vieram fazê-lo, certamente sem sabê-lo, com um ateu. Bem, naquele momento eu queria mesmo é estar terminando calmamente minha refeição, e procurei atentar para que o encontro fosse o mais breve possível, não só porque eu tinha outras coisas para fazer (além do desjejum) como porque não estava muito disposto a redargüir com minha posição sobre o assunto, devido à hora do dia e às circunstâncias do encontro, duas senhoras, uma com mais idade, com quem seria desgastante trocar uma discussão. Mas me dispus ao menos a dar-lhes a mínima atenção. Uma delas, a que se apresentou e à outra, começou a conversa dizendo que iam falar sobre segurança: "Hoje em dia nos preocupamos muito em colocar grades em nossas casas, cercas elétricas, não é?", disse ela olhando para as grades da minha casa. "É." "Você já se perguntou se um dia essa necessidade de segurança vai acabar, se vamos viver em paz?" "Já." "E a que conclusão você chegou ao pensar nisso?" Então, tantando ser o mais sucinto possível para abreviar o mais rápido possível o encontro, eu disse: "Acho que é muito difícil, mas não impossível. Se depender da posutra íntima de cada um, podemos mudar o mundo." Ela escutou minhas palavras com um olhar que dizia: "Embora eu não precise prestar atenção ao que você está dizendo, tenho certeza de que você éstá equivocado, pois tenho a resposta certa bem aqui na minha manga." Não era exatamente na manga, mas na bolsa, da qual ela retirou um pequeno exemplar da Bíblia, dizendo que a resposta àquela pergunta ali poderia ser encontrada. "Você tem uma Bíblia em casa?" "Tenho." "Então depois você dá uma lida melhor para entender, tá certo? Aqui o capítulo 37, versículos 10 e 11 de Salmos, diz: 'Ainda um pouco [ou seja, tendo paciência] e não existirá o ímpio [ou seja, os maus]; examinarás o seu lugar: já não estará ali. Mas os humildes possuirão a terra e desfrutarão de abundante paz.' E depois, no versículo 29: 'Os justos possuirão a terra e a habitarão para sempre'. Ou seja, os maus serão exterminados pelo Senhor e os justos viverão num mundo de paz, onde não haverá doenças. Entendeu agora? Quando Jesus vier, nosso mundo será um mundo onde as pessoas não envelhecerão, não haverá morte e, principalmente, não haverá doenças. Entendeu agora?" (Os trechos em colchetes são explicações da mulher sobre a passagem que leu, que aliás, lembro bem, não corresponde exatamente às mesmas palavras aqui escritas, copiadas da tradução qe tenho, diferetnte da que ela tinha em mãos.) "Ã-hã." Ela me entregou um panfleto sobre o novo mundo das Testemunhas de Jeová, dizendo que eu o lesse depois para compreeneder melhor aquele projeto escatológico, e nos despedimos sem mais deongas. Mas depois eu me perguntei se não teria valido a pena ter complementado minhas curtas respostas com observações que lhes mostrassem que suas palavras não foram para mim nenhuma lição. Eu poderia ter dito: "Entendi o que quer dizer, mas, como eu já disse, penso que é um projeto que para ser realizado depende de nosso trabalho, não da espera(nça) em um mito. Além disso, esse seu deus poderia ser mais justo e tentar ensinar os "maus" a serem "bons", ao invés de excluí-los." Essas palavras seriam realmente breves, e não custaria muito para mim pronuciá-las. Mas se o tivesse feito, talvez eu as estivesse convidando a prolongar ainda mais minha espera(nça) de terminar meu café-da-manhã... 20 december Elogio Misóginoou Análise de Discurso do Cavalheirismo
Recentemente, meu pai desenterrou da internet a música Mulher (Sexo Frágil), letra de Erasmo Carlos e Narinha. Por trás daquela música tosca e daquela voz desafinada, chamou-me atenção a letra, que é a seguinte.
Dizem que a mulher é o sexo frágil Quando eu chego em casa à noitinha
É evidente a intenção de elogio cavalheiresco, ou seja, a exaltação das virtudes próprias às mulheres. Em outro nível, adjacente, vê-se uma apologética, como que uma compensação da condição injusta em que as mulheres se encontram, na afirmação de que a mulher não é o “sexo frágil”, como dizem, mas é ela sim o “sexo forte”, sendo os homens “dependentes e carentes/Da força da mulher”.
Mas uma observação mais crítica do texto acima revela que ele tem uma intenção velada, que é a de fazer os ouvintes crerem que se trata exatamente de uma exaltação das virtudes femininas e uma apologia às mulheres. Lendo o texto em seu contexto, vale dizer, percebendo que foi produzido por nossa cultura Ocidental androcêntrica e misógina, o que se pode entrever é o contrário. É antes uma forma de reafirmar tudo o que nossa cultura vem atribuindo à mulher e ao feminino, mas disfarçadamente.
Já no início do poema, os autores se preparam para dizer exatamente que a mulher não é o sexo frágil porque seu papel social exige força e sapiência. Além disso, tem a qualidade de enfeitiçar os homens ao fingir-se submissa. Ora, o que se faz não é mais que inverter o discurso que desvaloriza o status da mulher, do “seu lugar”, e valorizá-lo, dizendo implicitamente “esse é seu lugar, mas é aí que ela tem força”. O discurso do poema serve então para legitimar o papel de dona-de-casa e mãe que se atribui à mulher.
O papel de esposa e mãe é bastante reforçado na segunda estrofe, onde à mulher é dada inteira responsabilidade pelos cuidados do marido e dos filhos. O homem chega “em casa à noitinha”, ou seja, chega do trabalho em que exerce o papel econômico masculino tradicional, complementar ao da mulher “doméstica”. A “força da mulher”, esse acolhimento normalmente visto como inerente à “natureza feminina”, do qual os homens são “dependentes e carentes”, confirma que o que se está dizendo é que da mulher depende o homem para suprir uma carência sua, masculina, que em outros contextos é simbolizada pela necessidade sexual viril. Assim, a mulher é representada como um objeto, ou acessório do homem. Isso se reflete no texto como um todo na forma da referência à mulher de forma descritiva e a não necessidade de se falar do homem, significando que este é o sexo normal.
Para concluir a segregação sexual e a hierarquia, o eu-lírico masculino finaliza o poema com a observação de que jamais tirou um 10 na escola da mulher, ou seja, o trabalho feminino não é para ele. Ele é forte mas não chega aos pés dela, quer dizer, deixemos onde a mulher é forte, onde ela faz o que sabe fazer melhor: ser esposa e mãe.
A tese deste ensaio é a de que o cavalheirismo é uma forma eufemizada de expressão da misoginia, ou seja, da depreciação do feminino e da submissão da mulher a papéis tradicionalmente inferiores. O cavalheirismo disfarça o machismo, atentando para que a mulher é frágil, e cantando suas virtudes para demonstrar uma pretensa exaltação que na verdade é a admiração pela mulher que se resigna em ser a “esposa de seu homem”, o “anjo do lar”, “a mãe dos filhos do seu marido”, fiel, devota e submissa. 18 december Da Hierarquia ao Universalismoou Sobre a Diferença na Ética e a Desigualdade na Moral Fala-se em filosofia da diferença entre moral e ética. Reconhce-se que aquela diz respeito a atos individuais, privados, enquanto esta se trata de ações sociais, públicas. Enquanto uma regula o íntimo, a consciência individual, a outra rege o comportamento face aos outros. Mas há uma diferença entre ética e moral, concernente às suas funções, que não é menos fundamental do que a dicotomia público/privado. Tal diferença diz respeito ao tipo de obrigação imposta aos que agem de forma moral ou ética. A moral, preocupada com a conservação de hierarquias de poder, preconiza um comportamento desigual, baseado nas diferenças sociais entre os indivíduos. Isto é visto principalmente na relação entre homens e mulheres. A dicotomia masculinidade/feminidade impõe condutas opostas. Ou seja, o que se proíbe a um sexo se exige do outro e vice-versa. O que significa que não há formas de agir morais definidas igualmente para todos. Um homem em nossa cultura que age segundo a moral não deve assumir posturas passivas, mas deve ser performático, ser notado, que é o que o faz "ser homem". Para a mulher, o que se proíbe é ser ativa, objetva, tendo que se submeter a um modo de ser e agir mais emotivo e dependente. Também se pode perceber a desigualdade da moral nas relações entre grupos sociais que compõem uma sociedade. Para um homem de classe média alta é terrivelmente embaraçoso se vingar de uma desonra se utilizando da violência física, e seria moralmente correto para ele buscar formas de retaliação mais "limpas", como um processo judiciário. Mas para um homem de "classe popular" a moral lhe exige derramar tanto sangue quanto o que a ele foi derramado. Em suma, a moral prescreve um tratamento mútuo desigual pela diferença. Já a ética pressupõe outra lógica. Menos estática do que a moral, a ética tem um fundamento racional, e seus "postulados" se constróem diacronicamente, evoluem com o Conhecimento. Ela é, em suma, universalista, e, enquanto a moral busca enfatizar a desigualdade, ela trata da diferença. Ou seja, é mais conciliadora, trata as diferenças não como chave para direitos e deveres desiguais, mas como um característica da individualidade dos seres. Sua lógica tenta, ao mesmo tempo que assume e respeita a singularidade de cada um, estabelecer um ethos que transpõe limites sócio-culturais. Dessa forma, de homens e mulheres não se exige mais que se comportem "segundo seu sexo", mas da forma que sua liberdade pessoal permitir, sem no entanto atentar contra a liberdade e os direitos dos outros, e procurando sempre um tratamento mútuo igual na diferença. 15 december Tabuou É Proibido Duvidar Há assuntos que se evitam a muito custo abordar. Por mais convicção que tenhamos em relação a uma coisa, quando tal convicção se opõe à opinião (pública), teme-se-a pôr em questão. Um exemplo clássico (que se trata de minha exeriência pessoal) é religião e Deus. Não é nada fácil ser ateu. Ainda menos quando eu me posiciono de forma a me considerar cientificamente agnóstico mas filosoficamente ateu. Aquele termo se refere à minha idéia de que não é possível através da Ciência a averiguação da existência de Deus (o agnosticismo não se refere só à questão da existência de Deus). O segundo termo se refere à negação de qualquer tipo de autoridade, humana ou divina. Para Mikhail Bakunin, a existência de Deus implica a escravidão do ser humano. Parodiando Voltarie, Bakunin diz: "Se Deus existisse, seria preciso aboli-lo". Há algum tempo li na revista Veja um excerto de um manual de etiqueta, que dizia que num jantar deve-se evitar conversar sobre 3 itens, entre os quais estava religião. Ora, quando se diz isso, o que se quer deixar entender é que "não se deve ofender as crenças das pessoas". Na realidade, pode-se muito bem falar de religião num jantar quando todos os presentes são adeptos de um mesmo credo. Admite-se até que cristãos de diversas correntes discorram sobre assuntos teológicos que interessam a todos eles. Mas não é bonito deixar à mostra a descrença ou o ceticismo, justamente porque estes abalam o apego desesperado dos crentes. 14 december Epitáfioou A Morte e o Texto
O texto, expressão escrita da língua — literário, ficcional, filosófico ou científico — tem o caráter simbólico da morte. A inércia do texto o faz ter essa cara de epitáfio, que simboliza o signo do qual só se tem a lembrança, evocada em cada leitura, como o morto evocado na memória inscrita na lápide.
O texto científico é conhecimento cristalizado, como a crisálida, letárgica, numa condição de quase morte, e que ressuscita como um ser feérico, quase etéreo como a idéia. A partir do momento em que publica seu texto, o cientista tem em mãos um fruto morto, obsoleto em relação ao conhecimento que está sempre mudando e se aperfeiçoando.
Roland-Barthes, na Aula, diz que todo texto literário é libertário, por subverter a ordem da instituição mais repressora — a língua. Ora, liberdade é morte; é na morte que se desfazem os grilhões da dominadora cultura, inevitável para a vida humana. E, na experiência pseudo-libertadora do texto — para o autor e para o leitor — pode-se sonhar; e no sono/sonho se experimenta antecipadamente a morte. Pode-se vivenciar uma realidade que ultrapassa a prisão das instituições humanas. Assim, a morte como transformação também caracteriza o texto artístico, que transforma a língua; o texto filosófico/científico, que transforma a realidade.
O texto acaba sendo a principal forma de transmissão de conhecimento em sociedades que conhecem a escrita. Na transmissão pela fala, os saberes se transformam mais rapidamente, porém mais caoticamente. É possível a gradual mudança do conhecimento sistematizado, racional ou artístico, através dos textos, periódicos ou livros. Mas a lentidão, que se sente na leitura de cada texto, na experiência pessoal, é comparável às sucessivas mortes e renascimentos da vida, tanto da matéria quanto da consciência. A sensação, no leitor, da desilusão, da angústia sadia, da solidão, que o conhecimento traz ao descortinar a realidade, da arte ao transformá-la, é a angústia da mudança brusca, da morte.
Não é à toa que a linguagem é feminina, passiva, instrumento do autor para sua paixão. Feminina porque idealmente inerte (e a inércia/morte é feminina; o feminino é inércia/morte), aparece aos humanos como sujeita a eles. Porém, o citado Barthes já disse que, longe de permitir dizer, a língua obriga a dizer. E os homens ficam sujeitos a essa bruxa, prostituta que se aproveita dos indefesos meninos que estão dentro deles. A meretriz(/bruxa) é um dos grandes arquétipos femininos relacionados à morte: a mulher que nega a maternidade, Medéia que mata seus filhos. Mas, além disso, não vamos negligenciar o caráter de mãe/parteira, que dá à luz imagens, idéias, conhecimento, discernimento.
Natal, 22/12/2002 |
|
|