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    18 februari

    Conto no Alter-Egos

    Anteontem, 16 de fevereiro, o blog Alter-Egos publicou um conto de minha autoria, o Beijo do Saxofone. Na realidade, foi uma "brincadeira" de Dyego Saraiva, o autor do tal blog, que sugeriu como trecho inicial as seguintes palavras:

    "Estávamos tocando a terceira música, era um Coltrane, e"

    A partir dessa deixa, eu e mais outros amigos desenvolveríamos, cada uma à sua maneira, o texto que quiséssemos. No meu caso, o resultado foi o conto de que falo acima.

    Confiram!

    12 februari

    Veja esta Coluna

    ou No Meio do Caminho tinha uma Pérola

    A "imparcial", "neutra", "objetiva" revista Veja não consegue esconder as sutilezas que denunciam da sua posição conservadora na imprensa. Mas sempre há espaço nesses meios para posição diversas, como as colunas e os ensaios, e vez por outra podemos encontrar um texto menos reacionário e mais lúcido a respeito dos assuntos hodiernos que representam tanta polêmica, como o pequeno artigo de André Petry publicado na Veja de 9 de fevereiro de 2005, que reproduzo abaixo.

    "A mentalidade fundamentalista do presidente americano George W. Bush, um político que tem a si mesmo na conta de interlocutor direto de Deus, está produzindo uma era de trevas – infortúnio que em seu país se materializa no combate ao aborto, na guerra ao casamento homossexual, no boicote a pesquisas científicas e até mesmo na mal disfarçada tolerância com a tortura de terroristas. Agora, cegada por seu belicismo e imbuída do espírito cruzadista, a Casa Branca está sendo empurrada para um caminho ainda mais obscuro: a defesa enviesada de um crime contra a humanidade. Aconteceu o seguinte: funcionários do governo americano estão, neste momento, empenhados em impedir que os governantes do Sudão, o maior país da África, sejam processados pelo Tribunal Penal Internacional pelo genocídio étnico que estão fazendo na região de Darfur, matança que inclui crucificar as vítimas, jogá-las na fogueira, arrancar-lhes os olhos e queimar barracos com crianças dentro.

    Bush não é simpático aos genocidas do Sudão, que, além de tudo, ainda usam o estupro como tática de guerra. O problema é que o governo americano não quer nem pensar na possibilidade de que, um dia qualquer, seus próprios militares – aqueles que torturam prisioneiros no Iraque ou na base de Guantánamo – também sejam conduzidos ao banco dos réus do Tribunal Penal Internacional. Para tanto, os Estados Unidos não querem legitimar o tribunal, aceitando que proceda a um julgamento dos sudaneses. O resultado prático é que, para proteger seus militares de uma eventual acusação, o governo americano está circunstancialmente aliado aos matadores do Sudão. É companhia da pior qualidade. Examinando-se à primeira vista, parece curioso que, apesar disso tudo, apesar de ter indicado como procurador-geral da República um sujeito que já defendeu publicamente a tortura, apesar de ter se enrolado numa constrangedora fieira de mentiras para justificar a invasão do Iraque, apesar de tudo isso, ainda se diz que George W. Bush foi eleito numa crescente maré de defesa de "valores morais".

    E o pior é que foi mesmo. Só que, voltando ao ponto inicial, Bush parece ser hoje o mais poderoso representante de valores da escuridão, do atraso, da estreiteza conservadora e, é claro, do patriotismo – aquilo que o pensador inglês Samuel Johnson dizia ser "o último refúgio dos velhacos". É natural que um governo se empenhe na defesa de seus cidadãos, civis ou militares, mas é uma má notícia que tal defesa atropele até mesmo a condenação de crimes contra a humanidade – e que isso venha justamente da terra da liberdade e da democracia. Bush já tem toda a razão de achar que pode – mais que isso: sendo um fundamentalista, ele acha que deve – invadir outro país mesmo sem consenso internacional, como fez com o Iraque. Tem razão ainda de fazê-lo com os argumentos que bem entender, pois, quando se descobriu que os tais estoques de armas de destruição em massa eram histórias da carochinha, ficou tudo por isso mesmo. É um sinal perigoso que tenha agora conseguido barrar o julgamento dos assassinos em massa no Sudão."

    Notem especialmente o trecho que ao meu ver é o nó górdio do texto: "ainda se diz que George W. Bush foi eleito numa crescente maré de defesa de 'valores morais'". Como se pode negar que foi isso mesmo? Petry tem consciência disso ("E o pior é que foi mesmo."). O que ele deixou de acrescentar foi que isso não é ruim. Os valores morais nunca se furtaram de usar meios violentos para atingir seus fins, de usar da guerra, do preconceito, do racismo, do obscurantismo, ou seja, da "escuridão, do atraso, da estreiteza conservadora e, é claro, do patriotismo".

    O que falta à política de Bush é outra coisa, que poderíamos chamar de Ética, muito diferente da Moral (vejam o post do dia 18 de dezembro de 2004, Da Hierarquia ao Universalismo). Se estivéssemos diante de um governo ético, poderíamos ter mais esperança de ver ações que respeitassem a liberdade de um povo de fazer sua própria história. Poderíamos esperar mais consideração à emancipação da mulher e dos homossexuais; uma posição menos atávica com relação ao aborto; uma política menos pareceida com uma caricatura do medievo obscurantista inimigo do desenvolvimento do conhecimento; uma posição mais humano para com a humanidade.

    04 februari

    Resposta a um Comentário

    ou Relativizar o Relativismo será Contrário ao Universalismo?

    Ao post intitulado Divagações Humanísticas (3 de fevereiro),  minha amiga Maria de Lourdes fez um mui pertinente comentário. Quero aqui (re)comentá-lo, para que o debate não se acabe e não se faça (lembrando Ezaú e seu comentário ao post do dia 20 de janeiro, Reino de Ninguém) uma "ecologia das idéias". Lourdes se pergunta:

    "Mas será que, em meio a toda essa pluralidade e diferença abismais de culturas e indivíduos, não existe nada que possamos identificar, sob o rótulo de humanidade, como um conjunto de condições existenciais comuns?"

    O extremo relativismo que meu texto transpareceu não foi intencional. Na realidade, ao tentar discutir através de uma visão relativista (que não abandono, pelo menos ainda não), acabei não o contrabalançando com alguma dose de universlismo (que também ainda não me permito abandonar). Concordo, sim, que há certamente algo comum a todas as consciências. Se asssim não fosse, não haveria sentido pensar uma ética. Um ideal de humanidade mais justo, a considerar que todos são "iguais", parece ter que constatar que todos têm algo que os torna semelhantes. Mas é então que se complica o debate, quando Loudes continua:

    "Quanto mais me debruço sobre a história, mais penso que nosso desejo de particularidade é enganoso e que, talvez, apenas o objeto de nossas paixões e dores nos distancia. Tenho minhas dúvidas quanto a esse relativismo exacerbado. Aliás, eu diria que ele é mais condizente com a atual fase do capitalismo que um pretenso prometeísmo universalista!"

    Parece que, da mesma forma que meu texto foi exacerbadamente relativista, o comentário de Lourdes foi por demais universalista. Penso que é válido o individualismo, a constatação de que somos diversos, de que não somos clones, de que temos pequenos "defeitos" que permitem a vida. Talvez (cá concordo) isso nos distancie, mas (aqui discordo) pode ser que seja isso um elemento necessário para que nos aproximemos. Sempre se procura inventar (ou descobrir) algo diferente no mundo. Mesmo que seja para esse "outro" assumir o papel do inimigo, sempre ele é, paradoxal e ambiguamente, uma coisa que queremos, que desejamos.

    Acho necessário não deixar de atentar para as ambigüidades e paradoxos dos conceitos que estamos utilizando. Pois, se o relativismo pode servir, e serve, aos projetos imperialistas do capitalismo (que melhor forma de legitimar a dominação do que naturalizando - e hierarquizando - as diferenças?), ele não deixa de se acompanhar de um modelo universal de "humanidade". Ao mesmo tempo, pensando o que poderia ser uma melhor humanidade, não parece apropriado abandonar o relativismo, pois um universalismo exagerado pode se tornar universalização, ou seja, uniformização com esquecimento da alteridade. Essa ambigüidade é mostrada por Lourdes no seguinte trecho do seu comentário:

    "O único universalismo que o discurso burguês, se é que existe tal coisa, permite, hoje, é o da Liberdade. É em nome desse novo Deus que os relativistas pretendem abolir a idéia de humanidade. Mas, também, é em nome da Liberdade que, contraditoriamente, as guerras contemporâneas têm sido feitas. Basta ver o discurso de Bush filho."

    A ditadura da liberdade é talvez a pior de todas, não simplesmente por ser uma das mais hipócritas, mas por exigir uma conduta extremamente contraditória (como é todo moralismo): ao mesmo tempo em que quer espontaneidade, exigie-se-a sob pena de exclusão; ao mesmo tempo em que se espera de todos uma adequação a essa moral, não tolera os preconceitos. (Mas tais preconceitos já estão todos previstos, e o que não se prevê é que os alvos de tais preconceitos não são identidades fixas, e destes se acaba obrigando que se cristalizem em tais identidades.)

    Acho que aqui, embora o que venho dizendo mostre evidentes divergências com Lourdes, posso dizer que afinal concordamos em algum ponto (ou, ao menos, assim o quero enxergar): não se deve absolutizar nem o relativismo nem o universalismo, ao mesmo tempo em que não se deve abandonar nenhum dos modos de vi-ver o mundo, por mais difícil (se não hercúleo) que pareça e seja. Mas se fosse tão simples, não haveria (absolutamente) necessidade deste diálogo.

    Enfim (e podem reclamar se estiverem achando os textos longos), não abandono um ideal de humanidade, mas ele deve ser sempre repensado e estar sempre posto em questão, e essa deve ser uma de suas características, não se cristalizar, para não se tornar mais um deus opressivo desses que conhecemos aqui e alhures.

    Nota

    Cara Lourdes, quanto ao "novo Chomsky", claro que o texto não pretendeu falar de nenhuma motivação com trás do signo, nem é um texto sobre Lingüística. A pretensão da comparação de palavras do japonês e do português foi uma brincadeira-pretexto para a discussão sobre o conceito de humanidade. Mas disso você já sabia.

    03 februari

    Carteiras pela Janela

    ou Defenestrar ou não Defenestrar?

    Dedicado a Moab Lucena

    Em Defenestração, crônica de Luís Fernando Veríssimo, o autor apresenta uma palavra desconhecida para a maioria dos falantes da língua portuguesa, palavra pertencente a essa mesma língua. Na verdade, duas palavras, o substantivo defenestração e o verbo defenestrar. Ao iniciar a crônica dizendo que algumas palavras têm o significado errado (como falácia, que para ele deveria ser o nome de "alguma coisa vagamente vegetal", ou hermeneuta, que deveria denominar os integrantes de uma seita hermética que atormentaria a população com suas frases sem sentido), o autor se pergunta o que seria defenestração. Uma coisa que só as mulheres libertinas fazem? Uma dessas palavras pomposas a serem usadas no final de documentos importantes? Um tipo de crime hediondo? (Qual seria a reação de Dona Bela, da Escolinha do Profesor Raimundo, à pergunta: "O que é defenestração?")

    Algum de vocês leitores já defenestrou? Eu lembro de um expulsão de um colega do 1o ano do 2o grau que ocorreu por causa de uma defenestração. Mas não uma defenestração qualquer. Ele defenestrou uma carteira da sala de aula, no Colégio Hipócrates Zona Sul. Quem o conhece hoje dificilmente imaginaria que ele fosse capaz desse ato. Pelo que ouvi do próprio defenestrador, ele cometeu a "infração" durante uma bagunça generalizada na classe, aproveitando o ensejo, talvez para mostrar como é que se faz bagunça de verdade.

    Como eu disse, o ato lhe rendeu uma expulsão, ou "transferência", como preferem os coordenadores das escolas e colégios. Ao pensar hoje nesse antigo colega defenestrador e atual amigo sociólogo, rememorei a crônica de Veríssimo. Mas a lembrança também suscitou uma reflexão sobre os métodos educacionais que temos por aqui. O método pedagógico da "transferência" se justifica por uma forma de ensinar o aluno a se comportar:

    "Se não se comportar, tiraremos você dessa escola, dos seu colegas e amigos para uma outra escola, em que você ficará intimidado pelo ambiente novo e onde não terá colegas e amigos em que confiar (isso, claro, até que você se enturme, comece a manjar dos pontos fracos do corpo docente, e cometa outro ato imprudente, para ser "transferido" outra vez)."

    A lógica desse procedimento não me parece ser outra coisa senão o fato de que a escola que "transfere" não sabe lidar com o aluno que ela não foi capaz de educar, e joga a batata quente para outra escola. Tanto não se justifica tal procedimento pela razão quanto se poderia justificar a "bagunça" da sala de aula como uma forma legítima de resistência (nos termos do sociólogo Michel Maffesoli) à opressão dessa educação que não educa para a vida, mas para o Vestibular, o diploma e o mercado de trabalho. Dessa forma faz sentido recordar Another Brick in the Wall, do Pink Floyd:

    We don't need no education

    We don't need no thought control

    No dark sarcasm in the classroom...

    31 januari

    Divagações Humanísticas

    ou A Humanidade se reduz a Ningen

    Alguns jesuítas, na época da catequização, procuraram uma raiz comum entre o tupi-guarani e o grego, como forma de mostrar uma origem comum entre os nativos americanos e os europeus. Um dos supostos indícios seria a palavra oca, que signfica "casa", muito parecida com o grego oikos, com o mesmo significado. Esse tipo de coincidência não deveria surpreender (principalmente no caso de línguas com origens comuns, com os cognatos), já que em meio a milhares de signos, significantes e significados em tantas milhares de línguas no mundo, seria de espantar não encontrar nenhuma coincidência. Outro exemplo é o vocábulo japonês ai, que significa "amor". Será que essa palavra japonesa fala da dor do amor romântico que conhecemos no ocidente?

    Um exemplo muito interessante é a palavra nipônica ningen, que significa "humanidade", no sentido do substantivo coletivo. Sua pronúncia é quase a mesma do portugês ninguém, o que poderia nos fazer pensar na comunidade humana como uma coisa tão abstrata que na realidade não é nada.

    Se levássemos a sério essa coincidência como não-casual, poderíamos descobrir uma sabedoria japonesa que nos mostra que "humanidade" é um conceito irreal, que não é o conjunto dos seres humanos, nem é algo maior do que o conjunto dos indivíduos da espécie humana (o todo maior do que a soma das partes, nos termos de Émile Durkheim), mas apenas um ideal (ainda) não-realizado. De fato, cada povo, em seu etnocentrismo, deve ter criado sua própria idéia de "humanidade", geralmente pensada nos moldes de sua própria cultura, ou mesmo pensada como abarcando apenas os indivíduos de tal povo. Os europeus, a quem devemos uma razão que permite pensar a "humanidade" como mundial/terrestre, já a idealizaram  como incluindo apenas os "cristãos civilizados". Para os gregos da democracia antiga, a "humanidade" eram os cidadãos livres da pólis, excluindo as mulheres, os escravos e os estrangeiros. Para muitos povos tribais, as pessoas das tribos vizinhas não são humanas, e por vezes são consideradas animais ou seres sobrenaturais, de natureza alienígena, mesmo que a diferença biológica-cultural entre as duas comunidades seja ínfima.

    Talvez devêssemos repensar o conceito de humanidade. No real, não há "humanidade", apenas seres humanos, indivíduos, tentando existir e sobreviver, e/ou tentando existir e conviver com os outros. Mas não adianta o altruísmo para se criar uma "humanidade", pois as relações entre os seres não se resumem nem se reduzem a uma grande teia cristalizada e parada na história. Mesmo que consigamos viver pelos ideais de uma razão "humana", não haverá uma humanidade, mas sempre haverá uma tal mutabilidade dos indivíduos e nas relações, uma tal diversidade de humanidades (em quaisquer sentidos que esta palavra abarque) e alteridade de realidades, que não fará sentido uma "humanidade". Esta não abarca ninguém, pois não pode falar da realidade das consciências no(s) unvierso(s).

    28 januari

    De Roma a Klingon

    ou Impérios do Passado, do Presente e do "Futuro"

    Ontem à noite assisti a um episódio da série de televisão Enterprise, baseada no universo de ficção científica do filme Jornada nas Estrelas (Star Trek, 1966). Não sou um "trekker" (como são conhecidos os fãs dos filmes e das séries), mas gosto desse tipo de ficção científica (como a seqüência Guerra nas Estrelas e o seriado Babylon 5), que encenam num ambiente fantástico vários temas humanos e existenciais.

    No tal episódio, intitulado "Judgment", o capitão da nave Enterprise, Jonathan Archer, era réu num julgamento feito pelos klingons, uma raça alienígena que expande seu império pelo universo, colonizando outros planetas. A acusação era a de que o capitão humano havia se recusado a devolver refugiados que se rebelaram contra o Império Klingon. A versão do acusado era a de que ele na verdade não devolveria os "rebeldes" por estes estarem em péssimas condições de vida e precisando de assistência. Mas as leis do Império preponderariam neste caso, embora se tratasse de uma acusação a alguém que não estava politicamente envolvido com o Império.

    A história me lembrou o seriado Babylon 5, que costumava ser exibido no Sony Entertainment Television. O seriado tratava da história de uma estação espacial, a Babylon 5 (Babilônia 5), criada pelos humanos para servir de fulcro diplomático, um local neutro onde se encontravam representantes de várias raças de vários planetas. Uma dessas raças, os centauri, do planeta Centauri, tinham um império como o dos klingons de Jornada nas Estrelas, e um dos dramas da trama era o conflito dos centauri com uma raça chamada narn, do planeta Narn, que sofreu muito com a Pax Romana dos centauri.

    Este fim de semana deverão ocorrer eleições presidenciais no Iraque, um acontecimento que deverá marcar um novo regime político-governamental no país. A nova Aliança Unida Iraquiana (como soa ocidental...) terá uma democracia e um governante eleito "democraticamente". Experimentará um ritual típico da cultura do povo que recentemente o colonizou. Os favoritos são pró-EUA, e vários dos candidatos estudaram ou viveram na Europa ou na América. Ou seja, estão ali como representantes dos interesses do Império que conhecemos como Estados Unidos da América.

    O império é um fenômeno histórico que se repete desde a Antigüidade (Mesopotâmia, Egito, Roma, Grécia, China) até os dias de hoje em nosso planeta. Observar esse fato chama a atenção para uma característica típica de nossa espécie humana. Nenhum animal coloniza ou escraviza indivíduos de sua própria espécie como fazemos. É que a cultura nos ensina a diferenciar as comunidades humanas como tão díspares entre si quanto o são os elefantes e as formigas. A ficção científica chega ao ponto de representar diversos povos como pertencentes a espécies diferentes, mas que são na verdade simbólicos da diversidade cultural (e mesmo individual) do próprio ser humano.

    20 januari

    Reino de Ninguém

    ou Encontro "Casual" de um Ateu com Jeová

    Acordei cerca das 8:45, para escovar meus dentes e tomar sossegado meu café-da-manhã. Alguém bate palmas à porta, e Edilma, a empregada doméstica, está ocupada limpando a casa. Meus pais e meu irmão estão fora, minha irmã e minha prima ainda estão dormindo, e tenho que interromper meu tranqüilo café-da-manhã para atender a duas senhoras que se apresentam como "pessoas que decidiram sacrificar um pouco do seu tempo para ler a Bíblia com os moradores da vizinhança". Por alguma razão que ainda desconheço, vieram fazê-lo, certamente sem sabê-lo, com um ateu.

    Bem, naquele momento eu queria mesmo é estar terminando calmamente minha refeição, e procurei atentar para que o encontro fosse o mais breve possível, não só porque eu tinha outras coisas para fazer (além do desjejum) como porque não estava muito disposto a redargüir com minha posição sobre o assunto, devido à hora do dia e às circunstâncias do encontro, duas senhoras, uma com mais idade, com quem seria desgastante trocar uma discussão. Mas me dispus ao menos a dar-lhes a mínima atenção.

    Uma delas, a que se apresentou e à outra, começou a conversa dizendo que iam falar sobre segurança:

    "Hoje em dia nos preocupamos muito em colocar grades em nossas casas, cercas elétricas, não é?", disse ela olhando para as grades da minha casa.

    "É."

    "Você já se perguntou se um dia essa necessidade de segurança vai acabar, se vamos viver em paz?"

    "Já."

    "E a que conclusão você chegou ao pensar nisso?"

    Então, tantando ser o mais sucinto possível para abreviar o mais rápido possível o encontro, eu disse:

    "Acho que é muito difícil, mas não impossível. Se depender da posutra íntima de cada um, podemos mudar o mundo."

    Ela escutou minhas palavras com um olhar que dizia: "Embora eu não precise prestar atenção ao que você está dizendo, tenho certeza de que você éstá equivocado, pois tenho a resposta certa bem aqui na minha manga." Não era exatamente na manga, mas na bolsa, da qual ela retirou um pequeno exemplar da Bíblia, dizendo que a resposta àquela pergunta ali poderia ser encontrada.

    "Você tem uma Bíblia em casa?"

    "Tenho."

    "Então depois você dá uma lida melhor para entender, tá certo? Aqui o capítulo 37, versículos 10 e 11 de Salmos, diz: 'Ainda um pouco [ou seja, tendo paciência] e não existirá o ímpio [ou seja, os maus]; examinarás o seu lugar: já não estará ali. Mas os humildes possuirão a terra e desfrutarão de abundante paz.' E depois, no versículo 29: 'Os justos possuirão a terra e a habitarão para sempre'. Ou seja, os maus serão exterminados pelo Senhor e os justos viverão num mundo de paz, onde não haverá doenças. Entendeu agora? Quando Jesus vier, nosso mundo será um mundo onde as pessoas não envelhecerão, não haverá morte e, principalmente, não haverá doenças. Entendeu agora?" (Os trechos em colchetes são explicações da mulher sobre a passagem que leu, que aliás, lembro bem, não corresponde exatamente às mesmas palavras aqui escritas, copiadas da tradução qe tenho, diferetnte da que ela tinha em mãos.)

    "Ã-hã."

    Ela me entregou um panfleto sobre o novo mundo das Testemunhas de Jeová, dizendo que eu o lesse depois para compreeneder melhor aquele projeto escatológico, e nos despedimos sem mais deongas. Mas depois eu me perguntei se não teria valido a pena ter complementado minhas curtas respostas com observações que lhes mostrassem que suas palavras não foram para mim nenhuma lição. Eu poderia ter dito: "Entendi o que quer dizer, mas, como eu já disse, penso que é um projeto  que para ser realizado depende de nosso trabalho, não da espera(nça) em um mito. Além disso, esse seu deus poderia ser mais justo e tentar ensinar os "maus" a serem "bons", ao invés de excluí-los."

    Essas palavras seriam realmente breves, e não custaria muito para mim pronuciá-las. Mas se o tivesse feito, talvez eu as estivesse convidando a prolongar ainda mais minha espera(nça) de terminar meu café-da-manhã...

    20 december

    Elogio Misógino

    ou Análise de Discurso do Cavalheirismo

     

    Recentemente, meu pai desenterrou da internet a música Mulher (Sexo Frágil), letra de Erasmo Carlos e Narinha. Por trás daquela música tosca e daquela voz desafinada, chamou-me atenção a letra, que é a seguinte.

     

    Dizem que a mulher é o sexo frágil
    Mas que mentira absurda
    Eu que faço parte da rotina de uma delas
    Sei que a força está com elas
    Veja como é forte a que eu conheço
    Sua sapiência não tem preço
    Satisfaz meu ego se fingindo submissa
    Mas no fundo me enfeitiça

    Quando eu chego em casa à noitinha
    Quero uma mulher só minha
    Mas pra quem deu à luz não tem mais jeito
    Porque um filho quer seu peito
    O outro já reclama sua mão
    E o outro quer o amor que ela tiver
    Quatro homens dependentes e carentes
    Da força da mulher

    Mulher, mulher
    Do barro de que você foi gerada
    Me veio inspiração
    Pra decantar você nesta canção
    Mulher, mulher
    Na escola em que você foi ensinada
    Jamais tirei um 10
    Sou forte, mas não chego aos seus pés

     

    É evidente a intenção de elogio cavalheiresco, ou seja, a exaltação das virtudes próprias às mulheres. Em outro nível, adjacente, vê-se uma apologética, como que uma compensação da condição injusta em que as mulheres se encontram, na afirmação de que a mulher não é o “sexo frágil”, como dizem, mas é ela sim o “sexo forte”, sendo os homens “dependentes e carentes/Da força da mulher”.

     

    Mas uma observação mais crítica do texto acima revela que ele tem uma intenção velada, que é a de fazer os ouvintes crerem que se trata exatamente de uma exaltação das virtudes femininas e uma apologia às mulheres. Lendo o texto em seu contexto, vale dizer, percebendo que foi produzido por nossa cultura Ocidental androcêntrica e misógina, o que se pode entrever é o contrário. É antes uma forma de reafirmar tudo o que nossa cultura vem atribuindo à mulher e ao feminino, mas disfarçadamente.

     

    Já no início do poema, os autores se preparam para dizer exatamente que a mulher não é o sexo frágil porque seu papel social exige força e sapiência. Além disso, tem a qualidade de enfeitiçar os homens ao fingir-se submissa. Ora, o que se faz não é mais que inverter o discurso que desvaloriza o status da mulher, do “seu lugar”, e valorizá-lo, dizendo implicitamente “esse é seu lugar, mas é aí que ela tem força”. O discurso do poema serve então para legitimar o papel de dona-de-casa e mãe que se atribui à mulher.

     

    O papel de esposa e mãe é bastante reforçado na segunda estrofe, onde à mulher é dada inteira responsabilidade pelos cuidados do marido e dos filhos. O homem chega “em casa à noitinha”, ou seja, chega do trabalho em que exerce o papel econômico masculino tradicional, complementar ao da mulher “doméstica”. A “força da mulher”, esse acolhimento normalmente visto como inerente à “natureza feminina”, do qual os homens são “dependentes e carentes”, confirma que o que se está dizendo é que da mulher depende o homem para suprir uma carência sua, masculina, que em outros contextos é simbolizada pela necessidade sexual viril. Assim, a mulher é representada como um objeto, ou acessório do homem. Isso se reflete no texto como um todo na forma da referência à mulher de forma descritiva e a não necessidade de se falar do homem, significando que este é o sexo normal.

     

    Para concluir a segregação sexual e a hierarquia, o eu-lírico masculino finaliza o poema com a observação de que jamais tirou um 10 na escola da mulher, ou seja, o trabalho feminino não é para ele. Ele é forte mas não chega aos pés dela, quer dizer, deixemos onde a mulher é forte, onde ela faz o que sabe fazer melhor: ser esposa e mãe.

     

    A tese deste ensaio é a de que o cavalheirismo é uma forma eufemizada de expressão da misoginia, ou seja, da depreciação do feminino e da submissão da mulher a papéis tradicionalmente inferiores. O cavalheirismo disfarça o machismo, atentando para que a mulher é frágil, e cantando suas virtudes para demonstrar uma pretensa exaltação que na verdade é a admiração pela mulher que se resigna em ser a “esposa de seu homem”, o “anjo do lar”, “a mãe dos filhos do seu marido”, fiel, devota e submissa.

    18 december

    Da Hierarquia ao Universalismo

    ou Sobre a Diferença na Ética e a Desigualdade na Moral

    Fala-se em filosofia da diferença entre moral e ética. Reconhce-se que aquela diz respeito a atos individuais, privados, enquanto esta se trata de ações sociais, públicas. Enquanto uma regula o íntimo, a consciência individual, a outra rege o comportamento face aos outros.

    Mas há uma diferença entre ética e moral, concernente às suas funções, que não é menos fundamental do que a dicotomia público/privado. Tal diferença diz respeito ao tipo de obrigação imposta aos que agem de forma moral ou ética.

    A moral, preocupada com a conservação de hierarquias de poder, preconiza um comportamento desigual, baseado nas diferenças sociais entre os indivíduos. Isto é visto principalmente na relação entre homens e mulheres. A dicotomia masculinidade/feminidade impõe condutas opostas. Ou seja, o que se proíbe a um sexo se exige do outro e vice-versa. O que significa que não há formas de agir morais definidas igualmente para todos. Um homem em nossa cultura que age segundo a moral não deve assumir posturas passivas, mas deve ser performático, ser notado, que é o que o faz "ser homem". Para a mulher, o que se proíbe é ser ativa, objetva, tendo que se submeter a um modo de ser e agir mais emotivo e dependente.

    Também se pode perceber a desigualdade da moral nas relações entre grupos sociais que compõem uma sociedade. Para um homem de classe média alta é terrivelmente embaraçoso se vingar de uma desonra se utilizando da violência física, e seria moralmente correto para ele buscar formas de retaliação mais "limpas", como um processo judiciário. Mas para um homem de "classe popular" a moral lhe exige derramar tanto sangue quanto o que a ele foi derramado. Em suma, a moral prescreve um tratamento mútuo desigual pela diferença.

    Já a ética pressupõe outra lógica. Menos estática do que a moral, a ética tem um fundamento racional, e seus "postulados" se constróem diacronicamente, evoluem com o Conhecimento. Ela é, em suma, universalista, e, enquanto a moral busca enfatizar a desigualdade, ela trata da diferença. Ou seja, é mais conciliadora, trata as diferenças não como chave para direitos e deveres desiguais, mas como um característica da individualidade dos seres. Sua lógica tenta, ao mesmo tempo que assume e respeita a singularidade de cada um, estabelecer um ethos que transpõe limites sócio-culturais. Dessa forma, de homens e mulheres não se exige mais que se comportem "segundo seu sexo", mas da forma que sua liberdade pessoal permitir, sem no entanto atentar contra a liberdade e os direitos dos outros, e procurando sempre um tratamento mútuo igual na diferença.

    15 december

    Tabu

    ou É Proibido Duvidar

    Há assuntos que se evitam a muito custo abordar. Por mais convicção que tenhamos em relação a uma coisa, quando tal convicção se opõe à opinião (pública), teme-se-a pôr em questão. Um exemplo clássico (que se trata de minha exeriência pessoal) é religião e Deus.

    Não é nada fácil ser ateu. Ainda menos quando eu me posiciono de forma a me considerar cientificamente agnóstico mas filosoficamente ateu. Aquele termo se refere à minha idéia de que não é possível através da Ciência a averiguação da existência de Deus (o agnosticismo não se refere só à questão da existência de Deus). O segundo termo se refere à negação de qualquer tipo de autoridade, humana ou divina. Para Mikhail Bakunin, a existência de Deus implica a escravidão do ser humano. Parodiando Voltarie, Bakunin diz: "Se Deus existisse, seria preciso aboli-lo".

    Há algum tempo li na revista Veja um excerto de um manual de etiqueta, que dizia que num jantar deve-se evitar conversar sobre 3 itens, entre os quais estava religião. Ora, quando se diz isso, o que se quer deixar entender é que "não se deve ofender as crenças das pessoas". Na realidade, pode-se muito bem falar de religião num jantar quando todos os presentes são adeptos de um mesmo credo. Admite-se até que cristãos de diversas correntes discorram sobre assuntos teológicos que interessam a todos eles. Mas não é bonito deixar à mostra a descrença ou o ceticismo, justamente porque estes abalam o apego desesperado dos crentes.

    14 december

    Epitáfio

    ou A Morte e o Texto

     

    O texto, expressão escrita da língua — literário, ficcional, filosófico ou científico — tem o caráter simbólico da morte. A inércia do texto o faz ter essa cara de epitáfio, que simboliza o signo do qual só se tem a lembrança, evocada em cada leitura, como o morto evocado na memória inscrita na lápide.

     

    O texto científico é conhecimento cristalizado, como a crisálida, letárgica, numa condição de quase morte, e que ressuscita como um ser feérico, quase etéreo como a idéia. A partir do momento em que publica seu texto, o cientista tem em mãos um fruto morto, obsoleto em relação ao conhecimento  que está sempre mudando e se aperfeiçoando.

     

    Roland-Barthes, na Aula, diz que todo texto literário é libertário, por subverter a ordem da instituição mais repressora — a língua. Ora, liberdade é morte; é na morte que se desfazem os grilhões da dominadora cultura, inevitável para a vida humana. E, na experiência pseudo-libertadora do texto — para o autor e para o leitor — pode-se sonhar; e no sono/sonho se experimenta antecipadamente a morte. Pode-se vivenciar uma realidade que ultrapassa a prisão das instituições humanas. Assim, a morte como transformação também caracteriza o texto artístico, que transforma a língua; o texto filosófico/científico, que transforma a realidade.

     

    O texto acaba sendo a principal forma de transmissão de conhecimento em sociedades que conhecem a escrita. Na transmissão pela fala, os saberes se transformam mais rapidamente, porém mais caoticamente. É possível a gradual mudança do conhecimento sistematizado, racional ou artístico, através dos textos, periódicos ou livros. Mas a lentidão, que se sente na leitura de cada texto, na experiência pessoal, é comparável às sucessivas mortes e renascimentos da vida, tanto da matéria quanto da consciência. A sensação, no leitor, da desilusão, da angústia sadia, da solidão, que o conhecimento traz ao descortinar a realidade, da arte ao transformá-la, é a angústia da mudança brusca, da morte.

     

    Não é à toa que a linguagem é feminina, passiva, instrumento do autor para sua paixão. Feminina porque idealmente inerte (e a inércia/morte é feminina; o feminino é inércia/morte), aparece aos humanos como sujeita a eles. Porém, o citado Barthes já disse que, longe de permitir dizer, a língua obriga a dizer. E os homens ficam sujeitos a essa bruxa, prostituta que se aproveita dos indefesos meninos que estão dentro deles. A meretriz(/bruxa) é um dos grandes arquétipos femininos relacionados à morte: a mulher que nega a maternidade, Medéia que mata seus filhos. Mas, além disso, não vamos negligenciar o caráter de mãe/parteira, que dá à luz imagens, idéias, conhecimento, discernimento.

     

    Natal, 22/12/2002