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    October 27

    Referendo, Reverência à Estupidez

    ou Como Errar Metodicamente o Alvo
     
    Quase todos os brasileiros votaram para decidir a aprovação ou não de uma lei para proibir a comercialização legal de armas de fogo.
     
    Para não deixar dúvidas, antes de continuar a escrever sobre isso, vou dizer explicitamente o meu posicionamento. A princípio, por ser a favor do total desarmamento da humanidade, eu votaria sim. Eu votei no número 3, anulei meu voto de propósito. Não sou a favor de uma proibição, seja qual for. A questão é que proibir a venda legal de armas não impedirá ninguém de ter uma, e não estou falando só dos "bandidos". Tal proibição não mudaria de uma hora para outra a mentalidade das pessoas que andam armadas com suas pistolas e sua medíocre honra. Para haver desarmamento, é preciso que a tão ridiculamente louvada "valorização da vida" seja uma verdade difundida na mentalidade das pessoas. Não digo isso por ser contra a vida, pelo contrário, sou a favor da vida, mas a vida não deve ser defendida por uma imposição da lei, e sim por um costume libertário (que só poderia, parece-me, ser difundido por uma educação racional, humana e humanística). No entanto, por também não concordar com a venda de armas, não poderia votar "não" sem estar sendo incoerente com minhas idéias.
     
    De qualquer forma, o referendo foi uma mostra de como um governo incompetente (não sei mais se lamento ou não ter votado no 13, ah, o número 13, azar ou sorte?) consegue errar com destreza o alvo. Antes de decidir sobre a proibição da venda de armas, seria preciso que a polícia (enquanto precisamos dela, espero que não para sempre) fosse melhor preparada e que o crime organizado e bem armado fosse desconstruído e desarmado. Mas isso ainda não ocorreu.
     
    Mas o Referendo até que ajudou um pouco a fazer esquecer por algum tempo o escândalo do mensalão.
    January 28

    De Roma a Klingon

    ou Impérios do Passado, do Presente e do "Futuro"

    Ontem à noite assisti a um episódio da série de televisão Enterprise, baseada no universo de ficção científica do filme Jornada nas Estrelas (Star Trek, 1966). Não sou um "trekker" (como são conhecidos os fãs dos filmes e das séries), mas gosto desse tipo de ficção científica (como a seqüência Guerra nas Estrelas e o seriado Babylon 5), que encenam num ambiente fantástico vários temas humanos e existenciais.

    No tal episódio, intitulado "Judgment", o capitão da nave Enterprise, Jonathan Archer, era réu num julgamento feito pelos klingons, uma raça alienígena que expande seu império pelo universo, colonizando outros planetas. A acusação era a de que o capitão humano havia se recusado a devolver refugiados que se rebelaram contra o Império Klingon. A versão do acusado era a de que ele na verdade não devolveria os "rebeldes" por estes estarem em péssimas condições de vida e precisando de assistência. Mas as leis do Império preponderariam neste caso, embora se tratasse de uma acusação a alguém que não estava politicamente envolvido com o Império.

    A história me lembrou o seriado Babylon 5, que costumava ser exibido no Sony Entertainment Television. O seriado tratava da história de uma estação espacial, a Babylon 5 (Babilônia 5), criada pelos humanos para servir de fulcro diplomático, um local neutro onde se encontravam representantes de várias raças de vários planetas. Uma dessas raças, os centauri, do planeta Centauri, tinham um império como o dos klingons de Jornada nas Estrelas, e um dos dramas da trama era o conflito dos centauri com uma raça chamada narn, do planeta Narn, que sofreu muito com a Pax Romana dos centauri.

    Este fim de semana deverão ocorrer eleições presidenciais no Iraque, um acontecimento que deverá marcar um novo regime político-governamental no país. A nova Aliança Unida Iraquiana (como soa ocidental...) terá uma democracia e um governante eleito "democraticamente". Experimentará um ritual típico da cultura do povo que recentemente o colonizou. Os favoritos são pró-EUA, e vários dos candidatos estudaram ou viveram na Europa ou na América. Ou seja, estão ali como representantes dos interesses do Império que conhecemos como Estados Unidos da América.

    O império é um fenômeno histórico que se repete desde a Antigüidade (Mesopotâmia, Egito, Roma, Grécia, China) até os dias de hoje em nosso planeta. Observar esse fato chama a atenção para uma característica típica de nossa espécie humana. Nenhum animal coloniza ou escraviza indivíduos de sua própria espécie como fazemos. É que a cultura nos ensina a diferenciar as comunidades humanas como tão díspares entre si quanto o são os elefantes e as formigas. A ficção científica chega ao ponto de representar diversos povos como pertencentes a espécies diferentes, mas que são na verdade simbólicos da diversidade cultural (e mesmo individual) do próprio ser humano.