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    25 maart

    Alienígenas e Predadores

    ou A Ficção Científica como Palco do Embate entre Masculino e Feminino

    Um dia desses assisti a um dos filmes que tem sido um dos mais esperados em décadas pelos fãs do cinema de ficção científica. Depois de terem se encontrado nos quadrinhos, em dezenas de video games e terem sido motivação para muita imaginação, os "aliens" (dos filmes Alien: O Oitavo Passageiro, 1979; Aliens, 1986; Alien 3, 1992; e Alien: A Ressurreição, 1997) e os "predadores" (O Predador, 1987; O Predador 2, 1990) finalmente se encontraram (e se enfrentaram) no cinema.

    Mas o que pode explicar tanta expectativa em relação a esse encontro de predadores? Seria a simples reposta a uma especulação de fãs quanto ao que resultaria do encontro entre as duas fictícias espécies alienígenas? Uma motivação política, esperando uma obra artística que retratasse de forma metafórica "a guerra entre o bem e o mal" (ou entre o Ocidente e o Oriente, ou entre o Primeiro Mundo e o Terceiro Mundo, ou entre Estados Unidos da América e o resto do mundo)?

    Penso que não se trata de mero capricho hollywoodiano. Ora, embora o filme venha sendo prometido há muitos anos (e este que escreve foi um dos que o esperou ansiosamente), tudo indica que a idéia do embate entre esses alienígenas tenha surgido entre os fãs de cinema e ficção científica; apareceram assim muitas sugestões em diversos video games (como o famoso arcade Alien vs. Predator, da Capcom, que me divertiu muito nos meus 14 anos) e nos quadrinhos. Além disso, o público que ansiou por esse filme é restrito e específico demais, embora fiel. Tampouco a "motivação política" parece ter sido inspiração para a obra. Quando se trata de retratar questões, conflitos políticos, guerras etc., Hollywood nos "presenteia" com Rambo (1982), Nova Iorque Sitiada (1998) e outras coisas.

    Ao assistir ao filme, veio-me à mente o livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário, de Gilbert Durand. Notei que era possível enquadrar os aliens no regime noturno da imagem, de acordo com a classificação de Durand, enquanto os predadores se encaixam melhor no regime diurno. Sem me demorar numa explicação sobre o que é cada um desses regimes, contento-me em explicar que essa classificação significa que os aliens representam o feminino, enquanto os predadores são símbolos masculinos.

    Uma das coisas que me chama atenção é a escolha da designação de cada espécie. Ambas são alienígenas (em inglês alien), e ambas são predadoras. Mas os aliens são mais animalescos, mais próximos da natureza, numa palavra, são mais orgânicos. Em nossa cultura ocidental androcêntrica, normalmente a mulher (e o feminino) é representada como mais próxima da natureza e, assim, um ser estranho em relação ao homem (e o masculino), que seria mais próximo da cultura. A mulher é tratada por nossas representações milenares como o segundo sexo, como um alienígena, uma criatura diferente do homem, sendo este tido como modelo de ser humano. O homem/macho, por sua vez, é o sexo guerreiro, suas motivações são vistas como as de um caçador em busca do sustento da família e também de um predador que luta por troféus (sejam riquezas ou mulheres).

    Os aliens têm uma relação estreita com sua mãe, uma relação orgânica no sentido mais romântico que a semântica dessa palavra pode alcançar. São bem como abelhas ou formigas, o que pode nos autorizar pensar que são todos fêmeas, vivendo num mundo natural, biológico, como em nossa cultura se representa a mãe com os filhos, nos laços afetivos de um mundo feminino. Suas armas são seus próprios corpos, a cauda flexível e perfurante, o sangue ácido, a arcada bucal dupla e a hiper-resistente couraça. A relação que estabelecem com os protagonistas humanos é orgânica também, pois sua procriação depende de um organismo hospedeiro (no caso os humanos) na primeira fase da vida, e dos corpos humanos aprisionados para servir de alimento.

    Já os predadores se caracterizam por ser mais individualistas, "livres" num sentido, sem um vínculo afetivo materno que lhes tolha a individualidade. Aparentam ser todos machos (possuem um físico masculino, segundo os padrões humanos), numa sociedade cooperativa-competitiva, em que lutam lado a lado mas parecem ter objetivos pessoais (que no entanto coincidem). Agem como heróis em busca de troféus de suas caçadas, e viajam pelos planetas em busca de satisfação para seu esporte. Suas armas sãp artificiais, lanças e garras retráteis, discos cortantes que voltam como bumerangues, lasers explosivos lançados de seus ombros, redes de aprisionamento, bombas (que podem usar para se matar, num gesto de honra masculina tipicamente conhecido entre guerreiros da Terra) e outras, além de uma armadura sem a qual podemos imaginar que seriam bem vulneráveis.

    Resumindo, parece que esse embate simboliza uma querela que perdura entre seres humanos há muito tempo, e que sempre foi motivo para elaboradas teorias sexistas e piadas preconceituosas sobre mulheres e homens que parecem não perder a validade entre aqueles (muitos)  que pensam que está na natureza a origem das diferenças de comportamentos entre os machos e fêmeas humanos, e daí as desigualdades entre eles também.

    20 december

    Elogio Misógino

    ou Análise de Discurso do Cavalheirismo

     

    Recentemente, meu pai desenterrou da internet a música Mulher (Sexo Frágil), letra de Erasmo Carlos e Narinha. Por trás daquela música tosca e daquela voz desafinada, chamou-me atenção a letra, que é a seguinte.

     

    Dizem que a mulher é o sexo frágil
    Mas que mentira absurda
    Eu que faço parte da rotina de uma delas
    Sei que a força está com elas
    Veja como é forte a que eu conheço
    Sua sapiência não tem preço
    Satisfaz meu ego se fingindo submissa
    Mas no fundo me enfeitiça

    Quando eu chego em casa à noitinha
    Quero uma mulher só minha
    Mas pra quem deu à luz não tem mais jeito
    Porque um filho quer seu peito
    O outro já reclama sua mão
    E o outro quer o amor que ela tiver
    Quatro homens dependentes e carentes
    Da força da mulher

    Mulher, mulher
    Do barro de que você foi gerada
    Me veio inspiração
    Pra decantar você nesta canção
    Mulher, mulher
    Na escola em que você foi ensinada
    Jamais tirei um 10
    Sou forte, mas não chego aos seus pés

     

    É evidente a intenção de elogio cavalheiresco, ou seja, a exaltação das virtudes próprias às mulheres. Em outro nível, adjacente, vê-se uma apologética, como que uma compensação da condição injusta em que as mulheres se encontram, na afirmação de que a mulher não é o “sexo frágil”, como dizem, mas é ela sim o “sexo forte”, sendo os homens “dependentes e carentes/Da força da mulher”.

     

    Mas uma observação mais crítica do texto acima revela que ele tem uma intenção velada, que é a de fazer os ouvintes crerem que se trata exatamente de uma exaltação das virtudes femininas e uma apologia às mulheres. Lendo o texto em seu contexto, vale dizer, percebendo que foi produzido por nossa cultura Ocidental androcêntrica e misógina, o que se pode entrever é o contrário. É antes uma forma de reafirmar tudo o que nossa cultura vem atribuindo à mulher e ao feminino, mas disfarçadamente.

     

    Já no início do poema, os autores se preparam para dizer exatamente que a mulher não é o sexo frágil porque seu papel social exige força e sapiência. Além disso, tem a qualidade de enfeitiçar os homens ao fingir-se submissa. Ora, o que se faz não é mais que inverter o discurso que desvaloriza o status da mulher, do “seu lugar”, e valorizá-lo, dizendo implicitamente “esse é seu lugar, mas é aí que ela tem força”. O discurso do poema serve então para legitimar o papel de dona-de-casa e mãe que se atribui à mulher.

     

    O papel de esposa e mãe é bastante reforçado na segunda estrofe, onde à mulher é dada inteira responsabilidade pelos cuidados do marido e dos filhos. O homem chega “em casa à noitinha”, ou seja, chega do trabalho em que exerce o papel econômico masculino tradicional, complementar ao da mulher “doméstica”. A “força da mulher”, esse acolhimento normalmente visto como inerente à “natureza feminina”, do qual os homens são “dependentes e carentes”, confirma que o que se está dizendo é que da mulher depende o homem para suprir uma carência sua, masculina, que em outros contextos é simbolizada pela necessidade sexual viril. Assim, a mulher é representada como um objeto, ou acessório do homem. Isso se reflete no texto como um todo na forma da referência à mulher de forma descritiva e a não necessidade de se falar do homem, significando que este é o sexo normal.

     

    Para concluir a segregação sexual e a hierarquia, o eu-lírico masculino finaliza o poema com a observação de que jamais tirou um 10 na escola da mulher, ou seja, o trabalho feminino não é para ele. Ele é forte mas não chega aos pés dela, quer dizer, deixemos onde a mulher é forte, onde ela faz o que sabe fazer melhor: ser esposa e mãe.

     

    A tese deste ensaio é a de que o cavalheirismo é uma forma eufemizada de expressão da misoginia, ou seja, da depreciação do feminino e da submissão da mulher a papéis tradicionalmente inferiores. O cavalheirismo disfarça o machismo, atentando para que a mulher é frágil, e cantando suas virtudes para demonstrar uma pretensa exaltação que na verdade é a admiração pela mulher que se resigna em ser a “esposa de seu homem”, o “anjo do lar”, “a mãe dos filhos do seu marido”, fiel, devota e submissa.