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    August 03

    Concurso, Arte e Dinheiro

    ou Boa Sorte ao Poeta que não é Poeta
     
    Vou participar do 2o Concurso de Poesias Zila Mamede. Não estou nada preocupado com reconhecimento, não quero ser poeta (a não ser no estrito sentido de ser alguém que faz poemas, mas só o faço por hobby e, neste caso para ganhar dinheiro). Como dizem os parênteses, não entro no concurso para outra coisa senão ganharos R$ 2.000,00 (ou no mínimo os R$ 500,00). Menção honrosa... dispenso. Vou escolher os poemas dentre os que tenho guardados, talvez só 3.
     
    Alguns amigos me diseram que tenho muita chance de ganhar. Ora, claro, são meus amigos (amigos, pelo menos a maioira deles, são aquelas pessoas que mais mentem a nosso respeito, o que é sua maior diferença em relação aos inimigos), mas sei que em parte estão certos. Em parte, primeiramente, porque sei que faço bons poemas (sei por mim, sem falsa modéstia, e por pessoas que sei que têm bom gosto). Em parte, segundamente, porque os tipos de poemas que faço valorizam muito a forma (a forma, digamos, formal da poesia - rimas, métrica, muitos são sonetos decassílabos), o que para nossos apreciadores de poesia de hoje não é lá tão valorizado. Como disse a um amigo recentemente, arte é em primeiro lugar forma, não consteúdo.
     
    Boa sorte.
    March 20

    O Inadaptado

    ou Experiência Frustrada de um Antropólogo Eclético ao Tentar Aproximar-se dos Nativos da "Antropologia Social"

    Na última sexta-feira eu soube do resultado da seleção para o Mestrado em Antropologia Social da UFRN, à qual eu concorria. Fizera uma prova de conhecimentos com bom resultado (sendo eliminatória, eu passei), uma prova de proficiência em língua inglesa muito boa (embora sem saber minha nota, sei que fui bem, achei a prova muito fácil) e uma entrevista que com certeza deixou a desejar para a comissão julgadora (por motivos de ordem ética e principalmente literários, já que não é minha intenção aqui atacar pessoas, mas criticar instituições, não revelarei os nome dos professores que fizeram parte dessa comissão).

    Meu nome não estava entre os aprovados. Embora eu soubesse que a concorrência não era grande, que eu tinha plena capacidade de satisfazer as exigências da seleção, sabia de antemão que o projeto que apresentei, que tem um caráter estritamente teórico, com pesquisa bibliográfica, não agradaria aos docentes do DAN (Departamento de Antropologia) dessa Universidade, que têm uma obsessão por Etnografia, trabalho de campo que para eles é imprenscindível a qualquer pesquisa antropológica.

    O tema da entrevista foi justamente o meu projeto. Para eles, eu parecia não ter uma visão clara do que é cultura; em meu projeto eu me propus investigar as representações ocidentais da mulher, vista como mãe e/ou como meretriz; para a comissão de seleção, a cultura é específica, e eu não poderia abordar o mundo ocidental como uma cultura. Mas assim eles querem ignorar que há coisas que não são específicas (o que é o estruturalismo de Lévi-Strauss senão a constatação de instituições universais?), e a delimitação de uma cultura depende da escolha do olhar do pesquisador. Além disso, o autor cuja teoria nortearia minha pesquisa, Gilbert Durand, com seu livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário, foi apontado como não adequado por sua obra não ser a mais atual sobre o tema. A comissão ignorou, assim, a natureza de minha proposta, que era usar a obra de Durand como fundo teórico, já que eu não ignoro (e a comissão parece ter ignorado) que esse antropólogo francês não abordou o tema que eu propus.

    Sinto-me inadaptado no meio acadêmico, e sei que muitos pensadores que lá estão também se sentem assim. Mas tenho a sorte de encontrar algum refúgio na Universidade para pensar a Ciência de uma forma mais aberta e menos preconceituosa. Esta geração, para criar uma Universidade digna deste nome, precisa se esforçar muito num debate sério e longo que revise o que é o Conhecimento.

    Nota sobre o título: "O Inadaptado" é um capítulo do livro Sexo e Temperamento, da antropóloga norte-americana Margaret Mead, no qual ela discorre sobre aqueles indivíduos cujo temperamento não se adapta ao tipo de personalidade esperado para o seu sexo pela cultura em que estão inseridos.

    February 24

    Espelho Maldito

    "Normalmente, parece que a gente somente se irrita com as pessoas que pensam e que agem como nós."

    (Teresa Filósofa. Porto Alegre: L&PM, 2000. p. 111.)

    February 18

    Conto no Alter-Egos

    Anteontem, 16 de fevereiro, o blog Alter-Egos publicou um conto de minha autoria, o Beijo do Saxofone. Na realidade, foi uma "brincadeira" de Dyego Saraiva, o autor do tal blog, que sugeriu como trecho inicial as seguintes palavras:

    "Estávamos tocando a terceira música, era um Coltrane, e"

    A partir dessa deixa, eu e mais outros amigos desenvolveríamos, cada uma à sua maneira, o texto que quiséssemos. No meu caso, o resultado foi o conto de que falo acima.

    Confiram!

    January 20

    Reino de Ninguém

    ou Encontro "Casual" de um Ateu com Jeová

    Acordei cerca das 8:45, para escovar meus dentes e tomar sossegado meu café-da-manhã. Alguém bate palmas à porta, e Edilma, a empregada doméstica, está ocupada limpando a casa. Meus pais e meu irmão estão fora, minha irmã e minha prima ainda estão dormindo, e tenho que interromper meu tranqüilo café-da-manhã para atender a duas senhoras que se apresentam como "pessoas que decidiram sacrificar um pouco do seu tempo para ler a Bíblia com os moradores da vizinhança". Por alguma razão que ainda desconheço, vieram fazê-lo, certamente sem sabê-lo, com um ateu.

    Bem, naquele momento eu queria mesmo é estar terminando calmamente minha refeição, e procurei atentar para que o encontro fosse o mais breve possível, não só porque eu tinha outras coisas para fazer (além do desjejum) como porque não estava muito disposto a redargüir com minha posição sobre o assunto, devido à hora do dia e às circunstâncias do encontro, duas senhoras, uma com mais idade, com quem seria desgastante trocar uma discussão. Mas me dispus ao menos a dar-lhes a mínima atenção.

    Uma delas, a que se apresentou e à outra, começou a conversa dizendo que iam falar sobre segurança:

    "Hoje em dia nos preocupamos muito em colocar grades em nossas casas, cercas elétricas, não é?", disse ela olhando para as grades da minha casa.

    "É."

    "Você já se perguntou se um dia essa necessidade de segurança vai acabar, se vamos viver em paz?"

    "Já."

    "E a que conclusão você chegou ao pensar nisso?"

    Então, tantando ser o mais sucinto possível para abreviar o mais rápido possível o encontro, eu disse:

    "Acho que é muito difícil, mas não impossível. Se depender da posutra íntima de cada um, podemos mudar o mundo."

    Ela escutou minhas palavras com um olhar que dizia: "Embora eu não precise prestar atenção ao que você está dizendo, tenho certeza de que você éstá equivocado, pois tenho a resposta certa bem aqui na minha manga." Não era exatamente na manga, mas na bolsa, da qual ela retirou um pequeno exemplar da Bíblia, dizendo que a resposta àquela pergunta ali poderia ser encontrada.

    "Você tem uma Bíblia em casa?"

    "Tenho."

    "Então depois você dá uma lida melhor para entender, tá certo? Aqui o capítulo 37, versículos 10 e 11 de Salmos, diz: 'Ainda um pouco [ou seja, tendo paciência] e não existirá o ímpio [ou seja, os maus]; examinarás o seu lugar: já não estará ali. Mas os humildes possuirão a terra e desfrutarão de abundante paz.' E depois, no versículo 29: 'Os justos possuirão a terra e a habitarão para sempre'. Ou seja, os maus serão exterminados pelo Senhor e os justos viverão num mundo de paz, onde não haverá doenças. Entendeu agora? Quando Jesus vier, nosso mundo será um mundo onde as pessoas não envelhecerão, não haverá morte e, principalmente, não haverá doenças. Entendeu agora?" (Os trechos em colchetes são explicações da mulher sobre a passagem que leu, que aliás, lembro bem, não corresponde exatamente às mesmas palavras aqui escritas, copiadas da tradução qe tenho, diferetnte da que ela tinha em mãos.)

    "Ã-hã."

    Ela me entregou um panfleto sobre o novo mundo das Testemunhas de Jeová, dizendo que eu o lesse depois para compreeneder melhor aquele projeto escatológico, e nos despedimos sem mais deongas. Mas depois eu me perguntei se não teria valido a pena ter complementado minhas curtas respostas com observações que lhes mostrassem que suas palavras não foram para mim nenhuma lição. Eu poderia ter dito: "Entendi o que quer dizer, mas, como eu já disse, penso que é um projeto  que para ser realizado depende de nosso trabalho, não da espera(nça) em um mito. Além disso, esse seu deus poderia ser mais justo e tentar ensinar os "maus" a serem "bons", ao invés de excluí-los."

    Essas palavras seriam realmente breves, e não custaria muito para mim pronuciá-las. Mas se o tivesse feito, talvez eu as estivesse convidando a prolongar ainda mais minha espera(nça) de terminar meu café-da-manhã...